A ÉTICA E O LÍDER CARISMÁTICO. CEM ANOS DA MORTE DO SOCIÓLOGO MAX WEBER.

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Weber argumentava que a religião seria uma das razões pelas quais as culturas do Ocidente e do Oriente se desenvolveram de maneira diferente, e enfatizava a importância de algumas características do protestantismo ascético que, segundo o sociólogo, contribuíram para o nascimento do capitalismo, da burocracia e do Stat racional e legal nos países ocidentais”, escreve Gabriele Nicolo, em artigo publicado por L’Osservatore Romano, 13-06-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A política é um confronto, não é moral. Consequentemente, quem quer lidar com a política deve considerar que é competição e que é inerente a ela uma dimensão agônica que estabelece o declarado objetivo da derrota do adversário. Mas essa dinâmica pressupõe um modo de agir agressivo e sem escrúpulos que elimine qualquer forma de respeito pelo outro? A essa pergunta fundamental, Max Weber (de quem ocorre o centenário de morte em 14 de junho) fornece uma resposta clara e consciente: a vitória na política, uma vitória completa e autêntica, só pode ser obtida salvaguardando um código ético que contemple a plena conformidade com as leis, que, por sua vez, é uma garantia da proteção dos valores essenciais que inspiram e alimentam o tecido social e civil. A dimensão ética, portanto, desponta como paradigma inamovível em um contexto como o da política, onde os atores da cena geralmente tendem a dar as costas à disponibilidade da escuta e à vontade de diálogo.

Considerado um dos pais fundadores da sociologia moderna, Weber concentrou grande parte de suas pesquisas no desenvolvimento do capitalismo. Nesse sentido, foi influenciado por Karl Marx, de quem ao mesmo tempo criticou alguns aspectos do pensamento, como a concepção materialista da história. Weber, em relação a Marx, atribuía menos importância ao conflito de classes porque acreditava que as ideias e os valores influem sobre a sociedade da mesma maneira que as condições econômicas. Weber reconhecia o caráter do capitalismo moderno no racionalismo econômico, concebido como parte nevrálgica de um processo mais geral de racionalização que envolve a organização pragmática da empresa, a tendência ao lucro, a preparação de orçamentos preventivos e consultivos e, ao mesmo tempo, o uso de trabalho livre e a existência de um livre mercado. Ao lado desses elementos, o sociólogo e filósofo alemão indicava um fator definível como o “espírito do capitalismo”, isto é, uma mentalidade econômica específica que teria suas raízes no terreno da religião.

Em uma de suas obras mais conhecidas, A ética protestante e o espírito do capitalismo (1904-1905) Weber argumentava que a religião seria uma das razões pelas quais as culturas do Ocidente e do Oriente se desenvolveram de maneira diferente, e enfatizava a importância de algumas características do protestantismo ascético que, segundo o sociólogo, contribuíram para o nascimento do capitalismo, da burocracia e do Stat racional e legal nos países ocidentais.

No pensamento de Weber, em um cenário ligado às instituições convocadas para incentivar o progresso da sociedade, a reflexão sobre o valor do Parlamento ocupa um lugar importante. Em forte oposição ao chanceler Otto von Bismarck, criticado por ter transformado o Parlamento em um lugar “exclusivamente burocrático”, o sociólogo defendia que deveria ser um laboratório para moldar a democracia. É nesse contexto que os melhores homens são formados. Quem governa faz parte de uma minoria muito restrita e tal minoria só pode nascer dentro do Parlamento, que, ao mesmo tempo, é chamado a favorecer, de maneira sábia e prudente, o surgimento do líder carismático, concebido como síntese de uma elite. composto, de fato, pelos gênios mais brilhantes.

Mas, como Weber aponta na obra Parlamento e Governo (1917), o líder carismático poderia se deixar enredar por derivas autoritários. Caso isso acontecesse, o Parlamento desempenharia uma saudável atividade de controle opondo, em primeiro lugar, nesse exercício de vigilância, o valor da legalidade constitucional que ninguém pode violar. Weber, portanto, confia ao Parlamento a tarefa de atuar como um filtro entre o governo e as massas e, portanto, atribui a ele uma função de alto valor estratégico na perspectiva de uma vida civil bem regulamentada, baseada em equilíbrios sólidos.

Um aspecto conhecido por poucos e ainda de significância significativa diz respeito à importância atribuída por Weber ao jornalismo. Em uma conferência realizada em Munique em 1918, o sociólogo, com um discurso firme e peremptório, enfatizava que “nem todo mundo tem bem claro que escrever um bom artigo envolve um empenho intelectual igual ao exigido a um acadêmico que esteja envolvido em alcançar um grande objetivo”. Como se esquece – apontava Weber – que o jornalista geralmente precisa aprontar um artigo às pressas, em condições nem sempre favoráveis, enquanto o estudioso e o pesquisador geralmente dispõem de longos períodos e locais adequados para as necessidades da atividade intelectual.

Também se desconsidera o fato de que a responsabilidade do jornalista em relação à sociedade é “muito maior que a do estudioso”. A conferência aconteceu logo após o final da Primeira Guerra Mundial, quando o imperativo comum era reconstruir, em várias frentes, e com prioridades bem articuladas, o que havia sido destruído. Nessa perspectiva, os elogios de Weber ao jornalismo e ao jornalista assumem um valor ainda mais significativo, tendo o sociólogo compreendido muito bem a valiosa e eficaz contribuição que podem dar, para o bem e para o progresso da sociedade, também a caneta e a mão que a move.

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